Exclusivo: Hecatombe – trecho do livro "Antes que eu morra", por Luis Erlanger

Resolvemos dar um sentido ao fato de existir e visivelmente o projeto está fazendo água. Lentamente, não é um meteoro desgovernado sobre nossas cabeças grandes, mas devagar e sempre. Até que um dia não tem o sempre. Quando, ninguém sabe.
A abolição do instinto com e pela civilização é um insolúvel bug de proporções imensas, de atributo virou o grande fator que ameaça a espécie.
Que se retroalimenta e se manifesta de todas as formas inimagináveis. Da proliferação de cânceres ao degelo do círculo polar ártico — levando junto o grande e simpático urso-branco. Centenas de micro, lentos e metódicos desastres até a grande hecatombe, o arrasa-quarteirão incluindo todos os quarteirões.
Se, em grande catarse, a população toda do globo se desse as mãos, num só ato, tendo à frente o saudoso pastor Jim Jones, não seria tão eficaz.
Já que hay que morir, até acho decepcionante ir antes do fim coletivo. Se for inevitável, e é, macacos me mordam, muito melhor no meio de uma zona que não deixará um para contar a história. O fim da História. Tendo a noção de que o rodo iria passar sem exceção é mais aceitável. Na morte solitária, o cara pensa “por que eu?”, com todo mundo dançando, a sentença é “por que não eu?”. Então é beijar na boca de quem não devia, pegar no… na…(na hora, decido) de quem não podia. Farra de fim de festa. Mas aí tem que se acabar mesmo.
O aquecimento global é nossa versão civilizada do suicídio coletivo das baleias. Seremos todo um cardume, manada, sei lá, grupo de mamíferos terráqueos encalhando sem salvação em terra firme. Como previu o Frost, nosso fim está na dobradinha fire & ice.
Sessenta milhões de anos depois da Era do Gelo, da longa linhagem dos Scrat, o Astro Rei vai se transformar numa bola de luz azul, que nem lâmpadas de botequim pé-sujo, torrando todo mundo com raios ultravioleta e infravermelhos em alternância estroboscópica. Vamos torrar feito muriçocas.
E um medonho trovão barítono em vibrato, em dia de céu limpo, fará ecoar por todos os recantos: “Você foi removido com sucesso”, seguido do maior “OH!” da imensidão vindo de um coro celestial, em solfejo e vocalise, regência de Rachmaninoff, ao vivo, do Além.
Shine e babau geral. A reação em cadeia da polimerase tão temida pelos cientistas/profetas.
The Big Bzzzt Theory.
A mãe de todas as onomatopeias, que não será transcrita porque não sobrará quem o faça. Acorde final do capítulo de encerramento da história da nossa História, como o último som que a raça humana ouvirá antes de ao pó voltar. Ponto final de um círculo vicioso de uns chinfrins 201 mil anos, com muita sorte. Rezando para termos de lambuja mais um milênio para a frente. Eu, particularmente, acho uma previsão otimista.
Nada pessoal, caro Herr Doktor Genuss, cáspite, depois de 6,5 milhões de anos de mutações das mais distintas, as semelhanças entre você e o Bonobo do Congo (um mono anão e tarado, tentar não pensar no vocalista do U2) são bem maiores do que a igualdade entre um rato Stuart Little e um camundongo Mickey.
Aliás, a comparação da sequência completa do genoma de um homem e de um símio mostra que a diferença entre eles é apenas um pouco maior do que entre você e o vizinho do 706.
Sem drama, nosso sumiço significará apenas supressão da única espécie animal de primata bípede do gênero Homo ainda viva.
Isso se os Black Blocs não estropiarem geral antes, com transmissão ao vivo pelos ninjas e escuta da NSA.
E daí? Neca de pitibiribas.
Muitas outras, especialmente quadrúpedes, já partiram. Só nas últimas duas décadas foram onze espécies varridas do mapa por mudança de clima, escassez de alimento ou caça predatória.
De vez em quando, muito raro, a natureza dá uns espasmos de resistência. E não é que acharam um bicho novo, o Olinguito? É o primeiro carnívoro descoberto no Ocidente em cem anos. Na descrição dos cientistas fofos do Smithsonian, “parece o resultado de um cruzamento entre um gato doméstico e um ursinho de pelúcia”. Olha aqui no celular… Pelúcia?!? É um carcaju muito do mal acabado. É das florestas da Colômbia e do Equador. Será jogo rápido. Em breve também estará em extinção, devorado por guerrilheiros das Farc em banquetes com os Abijiras, aos brindes de chicha com chirrinchi.
E o barquinho vai, a tardinha cai.
(…)
( trecho do livro “Antes que eu morra” do jornalista e escritor Luis Erlanger / www.antesqueeumorra.com.br)

Redação Brasil News

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