Le Monde sobre escândalo na Petrobras: propina para o partido da presidente. Por Pierre Pichoff

O escândalo de desvio de verbas públicas na Petrobras é destaque no jornal francês Le Monde. De acordo com o jornal, o Brasil está abalado por um escândalo de proporções sem precedentes, afetando grandes agentes econômicos e personalidades políticas de centro-esquerda, do mesmo partido da presidente Dilma Rousseff. A luta contra a corrupção é agora uma prioridade na agenda do gigante sul-americano e de outros países da América latina.

O que é o escândalo Petrobras?

É um caso de corrupção político revelado em março de 2014, que a empresa de petróleo controlada pelo Estado, a Petrobras e as gigantes empresas brasileiras da construção civil.

Esses dois setores trabalham juntos em grandes projetos de infraestrutura, com, por exemplo, no projeto das novas reservas de petróleo descobertas em águas profundas no sul do Brasil.

As empresas de construção formaram um cartel para compartilhar esses mercados e praticar obras superfaturadas. Em troca, propinas foram pagas ao  partido do governo, o PT, que está no poder desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Essas propinas tinham como objetivo principal os financiamentos das campanhas eleitorais.

Quais são as empresas envolvidas?

Além da Petrobras, todas as grandes empresas de construção civil foram investigadas: a OAS, Odebrecht, Camargo Correia, Mendes Junior, Galvão, Iesa, Engevix, UTC / Constran. Algumas são multinacionais, presentes em vários continentes. CEOs e altos funcionários foram presos após do resultado da investigação. Curiosamente, a Odebrecht, empresa número um na construção no Brasil, não figura entre as empreiteiras acusadas. Ela é a construtora responsável por grandes obras do governo brasileiro em Cuba, Venezuela ou na África, principalmente durante o mandato do ex-presidente Lula.

Quais são os partidos políticos que receberam financiamentos com esse esquema oculto?

O inquérito revelou o envolvimento do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda), do qual pertence Lula e a atual presidente Dilma Rousseff, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, centro) e o Partido Progressista (PP, direita) do o ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf.

Dilma Rousseff está envolvida?

A presidente não foi citada pelo Procurador-Geral da República como sendo umas das pessoas suspeitas. No entanto, uma grande parte da opinião acredita que ela é “responsável”, senão “culpada”. Por quê? Porque ela era o ministra das Minas e Energia, ministério ao qual a Petrobras é vinculada, e depois foi a Chefe da Casa Civil do presidente Lula, à época dos acontecimentos. Como tal, ela também presidiu o conselho de administração da Petrobras. Pois, para muitos, “ela não podia não saber.”

Durante o seu primeiro mandato como presidente, Dilma Rousseff tinha criada uma reputação de incorruptível, separando- se logo de ministros suspeitos de “desonestidade”. No entanto, ela hesitou durante muito tempo antes de pedir para a presidente da Petrobras à época que eclodiu o escândalo, Graça Foster, se afastasse do cargo.

A investigação é mesmo imparcial?

A separação de poderes é um fato que existe mesmo no Brasil, ao contrário de outros países latino-americanos. O inquérito foi conduzido em conjunto por um pequeno juiz do interior, Sergio Moro, morador de Curitiba, e da Polícia Federal, um corpo de elite que foi competente em outros casos similares. Uma comissão parlamentar também está trabalhando para desvendar o escândalo.

Os juízes querem que o procedimento não leve muito tempo para ser concluído, ao contrário do caso do mensalão, revelado pela imprensa em 2004. As condenações pelo Supremo Tribunal Federal aconteceram em 2012, oito anos depois. Em comparação, o mensalão “desviou” 100 milhões de reais (30 milhões de euros), enquanto no caso do Petrobras, estamos falando de pelo menos 3 bilhões de reais, ou talvez três vezes mais que isso seguindo fontes.

Qual será o impacto político e econômico do escândalo?

Essa novela judicial deve durar pelo menos mais um ano. O governo está muito desestabilizado, sendo Dilma Rousseff está há apenas dois meses em seu segundo mandato. A maioria parlamentar está sob tensão. O povo brasileiro exasperado pedindo as cabeças. As consequências políticas são imprevisíveis.

No entanto, os danos econômicos são evidentes. As empresas envolvidas pertencem na bolsa de valores Brasileira, num momento em que a economia está quase em recessão. Os investimentos foram suspensos e com certeza, podemos apostar que as falências chegarão em breve…

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Pierre Pichoff

Escritor, colabora para diversos veículos de comunicação no Brasil, como O Estado do Maranhão e o Matheus Leitão News.